(texto de Manoel de Barros utilizado na dramaturgia do espetáculo “Desterro”)
Ao abrir as portas do espaço de ensaio e de construção cênica do espetáculo “Desterro”, o Coletivo Cê nos deixa ver um belíssimo Casarão, talvez não muito conhecido por todos os espectadores, situado na parte central de Sorocaba.
O Casarão antigo da CPFL praticamente não foi alterado pelo grupo, poucos são os acessórios cênicos que ressignificam o espaço. Contudo, ali, no encontro com outros espectadores, no perfume do café que traz lembranças das tardes com broa de fubá, nas brincadeiras de criança, nas cantigas populares que deixam saudade e na lua gigante que aponta no céu transformando o cenário cotidiano em cenário espetacular, podemos perceber juntos um espaço que não é mais da cidade e nem do grupo, é nosso, ganhamos assim nosso quintal.
A partir daí, a história do menino/homem interpretado por Hércules Soares se confunde também com nossas memórias (a memória, aliás, se personifica no espetáculo, interpretada de maneira doce e instigante pela atriz Eliane Ribeiro). Somos conduzidos, sempre pelo menino, por vários cômodos do Casarão e em cada um deles conseguimos perceber um fragmento da história do protagonista.
Num jogo de intimidade e estranhamento, o grupo brinca com imagens, olhares, iluminação e sabores. Através deste jogo, identificamo-nos ora como a mãe, fincada na terra, igual árvore, vendo o filho partir, e ora como passarinho que não consegue mais ficar dentro da gaiola, precisa voar.
Com leveza e astúcia, Janaina Silva parece flutuar através de suas palavras, compondo a dramaturgia do espetáculo. O texto é nitidamente fruto de grande pesquisa e sensibilidade, o que parece ser mérito não apenas da dramaturga como de todo elenco (a julgar pelo livro de registros do grupo).
Entre tantos acertos do Coletivo Cê, é necessário comentar a atuação de Fernanda Brito, presenteando os espectadores com uma performance corporal e vocal precisa e encantadora, a jovem atriz atrai todas as atenções ao teu canto, deixando em evidência também o trabalho habilidoso e talentoso de Júlio Mello (diretor do espetáculo) e de Melany Kern (preparadora corporal).
Por tudo isso, o nosso quintal, aquele que foi construído pelos atuantes do grupo, mas que é, durante a representação, compartilhado com os espectadores, se torna maior do que a cidade que o rodeia, se torna maior que os quintais que tentam reproduzir tão inutilmente esta cidade. É maior porque tem intimidade, e como adultos, que um dia tiveram que abandonar seu lugar de origem levando consigo as lembranças eternas, sabemos que é “pela intimidade que se mede o tamanho das coisas”.
“Desterro” é um espetáculo que deve ser prestigiado por aqueles que acham que a arte deve ter alguma função maior do que apenas divertir, por aqueles que têm lembranças e passado, e por aqueles que desejam assistir a algo realizado com muito bom gosto.
Serviço:"Desterro", de 20/02 a 11/04
Sábados às 20h e Domingos às 19h
Ingressos: Pague Quanto Puder
Local: Casarão da CPFL (Rua Dr. Ubaldino do Amaral, 202, Centro, Sorocaba-SP)
Info: (15) 88149882 e (15) 91121644


